Por João Santoro
Convivemos com incertezas ao longo da nossa vida. Porém, quem poderia imaginar que a Cidade do Samba, conhecida como “Parque temático do samba”, justo esse espaço que, com muita luta os amantes do carnaval conseguiram depois de longos tempos construindo sonhos e trazendo muitas alegrias de forma precária, fosse trazer um dos piores momentos vividos pelo carnaval carioca?
O samba não caiu. Ele apenas rebolou, e tenho toda certeza que a volta por cima vai ser de forma arrebatadora. Sim, leitores, presenciei todo o desespero vivido por muitos que trabalham com carnaval. Eu também trabalho com esse espetáculo que leva alegria para muita gente e não apenas para os brasileiros, mas também aos estrangeiros.
Posso confessar a todos que o que eu presenciei nas primeiras horas do dia desta segunda-feira foi algo, no primeiro momento, de susto e apreensão. Entretanto, em um piscar de olhos, foram momentos de força e união. Para quem pensa que carnaval é briga e disputa está totalmente enganado. Essa festa tão grandiosa não foi apagada por este incêndio, ou melhor, o que ocorreu nesta segunda, dia 7 de fevereiro, não teve força o bastante nem para alcançar alguns por cento nessa escala.
As palavras de uma funcionária da Mangueira retratam isso: “Vamos, gente, hoje não temos bandeira e nem pavilhão”, afirmava . A preocupação das pessoas em ajudar e, acima de tudo, a força e a vontade fizeram com que, nesse momento, se criasse um “G.R.E.S Superação”. Esse foi o lema, e é esse o desejo não apenas para as agremiações afetadas, mas sim de todo o carnaval.
Três escolas sofreram danos irreparáveis para esse carnaval. Mesmo assim, essa nuvem negra que atingiu seus barracões em nada vai manchar sua história e sua dignidade.
Não temos como imaginar um carnaval sem a Portela, maior detentora de títulos do carnaval do Rio de Janeiro, com 21 conquistas. Tem como seu símbolo uma águia, ou seja, símbolo de força, grandeza e da majestade. Uma constelação de personalidades veio do berço do samba em Madureira. Por mais que esteja um longo tempo sem título é uma escola que atrai as pessoas; quantas pessoas ao seu redor, caro leitor, são portelenses e nunca viram a escola campeã? Falo por mim, pois conheço muitos.
União da Ilha do Governador, seus lindos sambas clássicos. Responda rápido, quem já curtiu um Carnaval sem escutar os antológicos sambas da Ilha? Mole de responder a essa questão: ninguém. A tricolor da Ilha do Governador leva os foliões à loucura; Mesmo que nunca tenha conquistado um carnaval no grupo especial, a agremiação deixou grandes relíquias guardadas ao longo dos anos no carnaval do Rio de Janeiro.
Mesmo jovem, a Acadêmicos do Grande Rio não fica para trás. A escola de Duque de Caxias já fincou seu pavilhão entre as grandes do carnaval carioca. Ou será que você, leitor, já esqueceu que viu um homem voar na avenida? Para os mais esquecidos. o que dizer da reprodução do carro “Ratos e urubus” no desfile do ano passado? Tenho certeza que muitos reviveram um desfile guardado no passado naquele momento.Sim, a Grande Rio nunca venceu um carnaval, mas já está rotulada como um grande potência do carnaval e briga pelas primeiras colocações.
O carnaval no ano 2011 vai entrar para a história? Com certeza que sim, mas se engana quem pensa que será pelo fatídico desastre que ocorre no barracão. Será lembrado pela superação e garra do mundo do samba, de quem constrói e trabalha dia a dia para a construção desse sonho e dessas histórias que são verdadeiras artes que cantam e encantam milhões de pessoas. O presidente da Grande Rio falou que ia juntar os cacos, ou melhor, as cinzas, mas também não deixou de frisar que a escola vai desfilar na avenida nesse carnaval. Os presidentes da Portela e da Ilha também destacaram essa união e a vontade de entrar na avenida firmes.
Me desculpe a União da Ilha, mas vou pegar emprestado o refrão do samba desse ano e modificá-lo um pouco: “HOJE EU QUERO É BRINDAR, À VIDA”. O fogo, que nesse dia 7 de fevereiro foi uma pedra no caminho dessas três agremiações, foi muito pequeno para a história destas escolas virarem cinzas.
Força, samba!

